Um Laço de Amor - Filme

19/04/2018

***Realinhamento de Velas***


Este texto destina-se a meus amigos e colegas de profissão, especialmente os que estudam comigo, afim de que possam ver de uma forma prática, mesmo que fictícia, um processo de uma disputa judicial pela guarda de uma criança.
Mas também dedico a todos aqueles que tem filhos ou que desejam ter filho(s), caso lhes sirvam de útil para algo.

No filme, vemos a história da garotinha Mary Adler, criança superdotada, criada pelo seu tio, Frank Adler (Cris Evans) que detém a guarda dela após a mãe ter se suicidado.
A criança mostra-se inteligente demais para a classe que estuda, chamando a atenção da professora Bonnie (Jenny Slate). Ao saber do potencial da menina, a direção da escola entra em contato com a avó, que mostra-se bastante "interessada" em despertar os "superdotes" da neta.
Até aqui não há nenhum spoiller, mas há para nós a tão comum narrativa que envolve os problemas de disputa de guarda: Resistência das partes envolvidas em reconhecer qual o locus apropriado para a criança, alienação parental, além de uma projeção demasiadamente tóxica de anseios pessoais na criança, o qual vimos no caso "O Corpo Inerme" do livro "A Clínica Psicanalítica".
No desenrolar do filme, vemos como as relações se estruturam de uma forma tal que uma decisão judicial precisa contemplar os aspectos subjetivos e intersubjetivos e como as partes envolvidas não contemplam de fato o que a criança deseja, mas sim o que eles acham que ela precisa. De um lado, o tio preocupado com o rumo que a sobrinha pode acabar tomando nos estudos, tendo em vista os motivos pelos quais a mãe dela cometeu suicídio, e, de outro lado, a avó tentando repetir a mesma fórmula da filha na neta, com uma educação e vida exatamente condicionadas para um único objetivo, sem enxergar muitas vezes a criança e não a superdotada criança.
Podemos observar o processo de análise do psicólogo perito (ao que parece é o psicólogo perito ali), e como os advogados, ao menos pelas bandas de lá, fazem o verdadeiro papel de psicólogos pistoleiros, espremendo as testemunhas e as partes envolvidas, afim de fazer valer o peso pro seu lado da balança, sempre buscando influenciar na decisão do magistrado.
É interessante porque este ambiente descrito no filme é mais ou menos com o que vamos lidar em breve, com tendência a ser pior. E como é importante para nós, expor o produto do nosso trabalho e análise adiante aos magistrados, para que possam entender o valor da subjetividade e das questões afetivas.

No mais....

O que posso dizer da situação? Não sou pai, nem tio. Mas posso dizer que criar filhos é uma tarefa hercúlea, porque dentre várias coisas, entendemos que eles muitas vezes são mais desenvolvidos que nós em vários aspectos, são mais espertos do que nós já fomos, e fica difícil segurar o barquinho com o vento soprando a seu favor. Além disso, chega aquela hora difícil da separação ou da despedida, em que entende-se que ele(a) não pertence mais a você... Os pais agem igual a uma leoa com seus filhotes. Ela os lambe, lambe, mas sem deixar de pôr as patas em cima ddeles, cravando as unhas...de leve..
Ás vezes os pais dizem coisas que machucam, na tentativa de ajudar, ou na ânsia de corrigir, tendo em vista "o mundo inóspito que não nos acolhe".. Mas aí os filhos absorvem as palavras, pois as palavras ganham um enorme significado para eles. Assim, vão se construindo os conflitos, os traumas e os desvalimentos que também fazem parte da dinâmica e refletem no comportamento futuro.

Por fim, o que vale mesmo e o que de fato vai fazer toda a diferença é o amor que se dá a criança, e o amor que nela ficar registrado. Esse sentimento é um laço que nenhuma equação poderá traduzir.

Recomendo o filme! Bonito, leve e uma fofura de ver a garotinha...

PS: O ator Cris Evans, protagonista do filme namorou a atriz e colega de elenco Jenny Slate. Não demorou muito para que uma legião de fãs e haters (cientistas sociais que sabem definir o que é um "casal perfeito") começassem a criticar a atriz, por não a acharem à altura de alguém como ele, e ao mesmo tempo o criticarem por ele estar namorando uma mulher "não tão bonita" quanto ele...
Entendem como não são só as crianças a sofrerem essa repressão familiar/social, em nome do que se julga achar melhor para os outros??